ECONOMIA: Resumo em 17 Out 2026

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Ilustração de painel do mercado de ações
Imagem ilustrativa gerada por IA; não representa uma fotografia do fato.

O Fundo Monetário Internacional projeta a volta do Brasil ao grupo das oito maiores economias em 2027, o trabalho infantil caiu ao menor nível já medido pelo IBGE e a bolsa terminou a semana em alta. O dia teve ainda novas regras em Congonhas, crédito para a transição da escala 6×1, alerta sobre benefícios sociais, café recordista e a fábrica de celulose gaúcha.

FMI projeta o Brasil como oitava maior economia do mundo em 2027

O Brasil deve subir duas posições no ranking global de tamanho das economias e chegar ao oitavo lugar em 2027, de acordo com as projeções do novo relatório Perspectivas da Economia Mundial, publicado nesta semana pelo Fundo Monetário Internacional. Pelas contas do organismo, o Produto Interno Bruto brasileiro deve alcançar cerca de US$ 2,80 trilhões no próximo ano, valor suficiente para deixar para trás a Itália, estimada em US$ 2,77 trilhões, e a Rússia, calculada em US$ 2,68 trilhões. Em 2026, o país deve fechar o ano apenas na décima colocação, com um PIB próximo de US$ 2,65 trilhões. A mudança de posição, portanto, ocorre por uma margem estreita, e pequenas variações de câmbio ou de crescimento podem alterar a ordem entre os três países que disputam essas posições intermediárias da lista elaborada pelo fundo.

O topo da tabela segue praticamente inalterado nas projeções para 2027. Os Estados Unidos continuam na liderança com uma economia estimada em US$ 34,44 trilhões, seguidos pela China, com US$ 22,94 trilhões. Depois vêm a Alemanha, com US$ 5,66 trilhões, e a Índia, com US$ 4,52 trilhões, que aparece como um dos destaques do relatório ao saltar do sexto para o quarto lugar e superar Reino Unido e Japão, ambos com valores perto de US$ 4,5 trilhões. A França ocupa a sétima posição, com US$ 3,65 trilhões, imediatamente à frente do Brasil. Pela estimativa do fundo, a economia indiana pode inclusive tomar da Alemanha o terceiro lugar até 2031, último ano coberto pelas projeções, enquanto americanos e chineses devem manter as duas primeiras posições ao longo de todo o período analisado.

Para o Brasil, o cenário traçado pelo fundo prevê a permanência na oitava posição até 2031 e a superação da marca de US$ 3 trilhões em 2029. A última vez que o país apareceu nesse mesmo lugar foi em 2017, e o melhor resultado histórico foi o sétimo posto, alcançado em 1995 e no período de 2010 a 2014. É importante notar que o ranking compara o PIB nominal convertido em dólares, e não o volume real produzido. Por isso, a posição de cada país é influenciada pela inflação doméstica e, sobretudo, pela taxa de câmbio. Uma moeda brasileira mais valorizada aumenta o valor da economia medido em dólares, enquanto uma desvalorização forte pode empurrar o país para baixo na lista, mesmo que a atividade interna continue crescendo no mesmo ritmo de antes.

O mesmo relatório traz uma leitura menos animadora sobre o ritmo da atividade. O fundo prevê expansão de 2,2% para o PIB brasileiro em 2026 e de 1,9% em 2027, números revisados para baixo em relação às estimativas de julho e inferiores ao avanço de 2,3% registrado em 2025. A instituição atribui a perda de fôlego aos juros ainda elevados para trazer a inflação de volta à meta, à retirada de estímulos fiscais e às incertezas no cenário internacional. O Banco Central vem reduzindo a taxa básica desde o início do ano, de 15% para 13,75%, mas o próprio comitê de política monetária reconhece que o custo do crédito tem desacelerado a economia. Dados do IBGE mostraram alta de 0,5% no segundo trimestre, abaixo do avanço de 1,1% observado nos três primeiros meses do ano.

As projeções do fundo também contrastam com as expectativas do governo e do mercado financeiro. O projeto de Orçamento federal de 2027 enviado ao Congresso trabalha com um crescimento de 2,46%, percentual mais otimista do que o calculado pelo organismo internacional. Do outro lado, os analistas consultados semanalmente pelo Banco Central esperam números ainda menores, com expansão próxima de 1,85% neste ano e de 1,4% no próximo, e vinham reduzindo essas estimativas por semanas seguidas. A diferença entre as previsões mostra o grau de incerteza sobre a atividade em um período marcado pela eleição presidencial, pela trajetória dos juros e pelo comportamento do dólar. Para o ranking internacional, o resultado final dependerá tanto do desempenho da produção quanto da evolução do câmbio até o fechamento de 2027, quando o fundo deve publicar números revisados.

Trabalho infantil cai 9,2% e chega ao menor nível da série do IBGE

Em 2025, havia no Brasil 1,499 milhão de pessoas de 5 a 17 anos submetidas ao trabalho infantil, o equivalente a 4% da população nessa faixa etária. Os números fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgada pelo IBGE nesta sexta-feira (16), e representam o menor patamar desde o início do levantamento, em 2016. Em relação a 2024, quando 1,65 milhão de jovens estavam nessa condição, ou 4,3% do grupo, a redução foi de 9,2%. Na comparação com o primeiro ano da série, quando o contingente somava 2,1 milhões de pessoas, ou 5,2% da população de 5 a 17 anos, a queda acumulada chega a 28,6%. Apesar da melhora, o total ainda corresponde a quase um milhão e meio de meninos e meninas fora das condições previstas em lei.

O instituto adota critérios definidos pela legislação para classificar o que é trabalho infantil. Até os 13 anos, qualquer atividade econômica entra na conta, seja remunerada ou voltada para o consumo da própria família. Entre 14 e 15 anos, a única forma permitida é o trabalho na condição de aprendiz, com regras próprias e obrigação de frequentar a escola. Para adolescentes de 16 e 17 anos, a ocupação é aceita somente com carteira de trabalho assinada, e continuam proibidas as tarefas insalubres, perigosas ou realizadas no período noturno. Tudo o que foge dessas situações é contado como trabalho infantil. A metodologia permite comparar a evolução ao longo dos anos e identificar em quais idades e condições o problema se concentra, informação usada para orientar as ações de fiscalização e as políticas de proteção.

A trajetória do indicador não foi linear ao longo da última década. Entre 2016 e 2019, o número de crianças e adolescentes trabalhando recuou cerca de 15,7%. A pandemia interrompeu a pesquisa por um período e, na retomada, os dados de 2022 mostraram alta de aproximadamente 7%, reflexo da piora na renda das famílias durante a crise sanitária. Houve nova redução de 14,7% entre 2022 e 2023, seguida de um leve aumento de 2,1% em 2024. O resultado de 2025 retoma, portanto, a tendência de queda e leva o indicador ao ponto mais baixo já registrado. Especialistas costumam relacionar esse comportamento ao mercado de trabalho dos adultos, à renda disponível em casa e ao alcance dos programas de transferência, que ajudam a manter os filhos na escola em vez de complementar o orçamento familiar.

As fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego mostram como o problema aparece no dia a dia. Entre os casos encontrados pelos auditores estão crianças vendendo doces em bares, meninos e meninas trabalhando em olarias e adolescentes envolvidos na confecção de roupas. O superintendente do ministério em Minas Gerais, Carlos Calazans, relatou situações de crianças de seis, sete e oito anos oferecendo produtos nas ruas para ajudar no sustento da casa, expostas a acidentes, violência e outros riscos. Em grande parte dos casos, as vítimas vêm de famílias em situação de vulnerabilidade social. A legislação brasileira proíbe qualquer trabalho antes dos 14 anos, e a partir dessa idade a contratação só pode ocorrer como aprendiz, com carteira assinada, jornada limitada e compromisso de permanência nos estudos, regra que nem sempre é respeitada.

Entidades que atuam na proteção da infância receberam o resultado com cautela. O presidente-executivo da organização ChildFund Brasil, Maurício Cunha, afirmou que a queda não pode levar a sociedade a encarar o número como aceitável. Na avaliação dele, o país não deve naturalizar a existência de quase 1,5 milhão de jovens trabalhando nem se dar por satisfeito com a redução, porque o lugar das crianças é na escola, nas brincadeiras e sob proteção. O debate ganha peso porque o Brasil tem metas internacionais de erradicação do trabalho infantil e ainda está distante delas. Para os especialistas, manter a tendência de queda depende da continuidade das ações de fiscalização, do fortalecimento da rede de assistência social e de políticas que garantam renda às famílias mais pobres, evitando que a necessidade empurre crianças para o trabalho.

Ibovespa sobe com Magazine Luiza e dólar recua no fim da semana

O principal índice da bolsa brasileira terminou a sexta-feira (16) em alta de 0,54%, aos 205.430,33 pontos, em um pregão marcado por movimentos fortes em ações específicas e pela atenção do mercado às pesquisas eleitorais. O grande destaque do dia foi o Magazine Luiza, cujos papéis dispararam 6,93% após o anúncio de uma parceria com a plataforma de comércio eletrônico Shopee. A notícia animou os investidores, e analistas do BTG Pactual reforçaram a recomendação de compra para a varejista, com preço-alvo de R$ 12 por ação. No sentido oposto, a siderúrgica CSN ficou entre as maiores quedas da sessão, com recuo de 3,51%. O desempenho positivo do índice ocorreu mesmo com um ambiente externo menos favorável, já que as bolsas de Nova York encerraram o dia no campo negativo.

As pesquisas de intenção de voto para o segundo turno seguiram no centro das atenções. Um levantamento divulgado na quinta-feira mostrou o senador Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos, contra 49% do presidente Lula, diferença menor do que a registrada na rodada anterior, quando o placar era de 52% a 48%. Outra sondagem, publicada em seguida, apontou empate exato, com 50% para cada candidato. Para Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, a disputa apertada tende a manter a volatilidade elevada nos próximos dias, com os investidores reagindo a cada novo número. O mercado tem tratado a eleição como um dos principais fatores para a definição dos preços dos ativos, especialmente das empresas estatais e das companhias mais dependentes do consumo doméstico e do crédito, que reagem às expectativas para a política econômica.

No câmbio, o dólar comercial fechou a sexta-feira em queda de 0,26%, cotado a R$ 5,0735. Mesmo com o recuo no último pregão, a moeda americana acumulou alta de quase 2% ao longo da semana, depois de ter caído abaixo de R$ 5 logo após o resultado do primeiro turno. O movimento foi atribuído principalmente às pesquisas que indicam uma disputa mais apertada entre os candidatos. Os juros futuros também recuaram no último dia útil da semana, acompanhando o alívio no câmbio. Especialistas em investimentos lembram que a compra de dólares deve servir como proteção e diversificação da carteira, e não como aposta para superar o rendimento de aplicações atreladas ao CDI, já que acertar o melhor momento para entrar na moeda americana é uma tarefa difícil, mesmo para profissionais experientes.

O cenário internacional também tem pesado sobre os mercados ao longo da semana. Na quarta-feira (14), o Ibovespa havia recuado 0,18%, para 206.505,98 pontos, em um dia de cautela após a divulgação da inflação ao consumidor nos Estados Unidos. O índice americano acelerou de 3,4% para 3,7% em doze meses, acima dos 3,6% esperados pelos analistas, o que reforçou as dúvidas sobre o ritmo de cortes de juros pelo banco central do país. Naquela sessão, o dólar fechou em R$ 5,0289, e a Petrobras atingiu o maior valor de mercado de sua história, sustentada pela alta das ações da companhia. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano seguem perto das máximas em mais de duas décadas, o que aumenta a atratividade de aplicações no exterior e pressiona moedas emergentes.

Com o segundo turno marcado para o dia 25, a expectativa é de que a última semana da campanha concentre a volatilidade. Os investidores devem acompanhar de perto os debates, as novas rodadas de pesquisas e as sinalizações dos candidatos sobre política fiscal, juros e o papel das empresas estatais. Ações que subiram fortemente após o primeiro turno, como as de varejistas, academias e construtoras, ainda dependem da confirmação de um cenário de juros mais baixos para sustentar os preços atuais, avaliam analistas. Ao mesmo tempo, dados da economia americana e a trajetória dos juros nos Estados Unidos continuam no radar, já que influenciam o fluxo de recursos para países emergentes. A combinação entre fatores internos e externos deve manter o câmbio e a bolsa sensíveis a qualquer notícia nos próximos pregões.

Anac endurece regras para jatos executivos e táxi aéreo em Congonhas

A Agência Nacional de Aviação Civil aprovou regras mais restritivas para a aviação geral no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com o objetivo de combater um mercado paralelo de horários de pouso e decolagem. A partir da nova norma, operadores de táxi aéreo e de jatos executivos precisam contratar os serviços de um FBO, sigla em inglês para os operadores que prestam atendimento em solo às aeronaves, antes de pedir um slot no terminal. A decisão foi tomada pela diretoria colegiada em uma reunião virtual encerrada no dia 9 e publicada no Diário Oficial da União na quinta-feira (15). O aeroporto, um dos mais movimentados do país, enfrenta forte demanda por horários e tem oferta considerada escassa, o que torna cada janela de operação um ativo valioso para quem pretende voar.

O problema que a agência tenta atacar envolve agentes que reservam horários sem a intenção de usá-los, apenas para revendê-los depois a quem realmente precisa operar em Congonhas. Ao exigir a contratação prévia do atendimento em solo, a norma busca vincular a reserva a uma operação efetiva da aeronave, dificultando a especulação. Hoje, quatro empresas oferecem esse tipo de serviço nos hangares do aeroporto, e a configuração adotada após a concessão à espanhola Aena já tornava obrigatório o uso desses prestadores pelas aeronaves da aviação geral. O controle da distribuição dos slots é responsabilidade do Departamento de Controle do Espaço Aéreo, ligado à Aeronáutica, que participou das discussões e se manifestou favoravelmente ao modelo aprovado pela agência reguladora nesta etapa, depois de apontar obstáculos de competência e de viabilidade nas outras opções.

A nova regra ainda tem limitações reconhecidas pela própria agência. Por enquanto, o operador não precisa comprovar a contratação no momento da reserva do horário. Na prática, a fiscalização ocorrerá depois, e uma aeronave que pousar sem contrato com um operador de solo estará sujeita a multa. A área técnica chegou a avaliar uma alternativa que exigiria a comprovação prévia, mas a ideia foi deixada de lado por dificuldades operacionais. De acordo com o voto do relator, o diretor Rui Mesquita, essa opção dependeria de mudanças relevantes nos sistemas de coordenação e alocação de slots, administrados pelo controle do espaço aéreo, o que exigiria levantamento de requisitos, contratação e desenvolvimento tecnológico e atrasaria a implementação. A agência estuda ainda modelos de cobrança antecipada para versões futuras da norma.

O diretor-presidente da agência afirmou que as novas exigências restringem o uso de Congonhas pela aviação geral e que o órgão vai acompanhar de perto a aplicação das regras, com monitoramento e fiscalização das operações. A medida é vista como um primeiro passo, e a própria diretoria admite que acabar com o comércio paralelo de horários deve exigir normas mais rigorosas, que continuam em análise. A concessionária responsável pelo aeroporto foi procurada para comentar as mudanças, mas não havia se manifestado até a publicação das informações sobre a decisão. Empresas do setor de aviação executiva acompanham o tema com atenção, porque Congonhas é um ponto estratégico para voos corporativos, graças à proximidade com as principais regiões de negócios da capital paulista e ao acesso rápido ao centro expandido da cidade.

A disputa por espaço em Congonhas reflete um problema mais amplo da infraestrutura aeroportuária de São Paulo. O terminal fica em uma área densamente ocupada da cidade, tem limitações de pista e de horário de funcionamento e concentra parte expressiva dos voos domésticos do país. Por isso, a distribuição de horários entre companhias aéreas regulares e a aviação geral é alvo constante de discussões entre a agência reguladora, a concessionária e as empresas. Os prestadores de serviço de solo instalados no aeroporto também apresentaram uma proposta alternativa à agência durante o processo, mas o modelo aprovado foi o da contratação prévia com fiscalização posterior. A expectativa do setor é de que as regras sejam revistas à medida que os resultados práticos forem avaliados nos próximos meses de operação.

Governo prepara crédito para empresas afetadas pelo fim da escala 6×1

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta sexta-feira (16) que o governo prepara linhas de crédito e programas de inovação e capacitação para as empresas que serão mais afetadas pelo fim da escala de trabalho 6×1, aprovado pelo Congresso. Segundo o ministro, as medidas também devem alcançar companhias impactadas pela reforma tributária, que entra gradualmente em vigor nos próximos anos. A ideia é oferecer apoio para que os negócios se adaptem à redução da jornada sem perder produtividade, com financiamento, treinamento de equipes e incentivo à modernização dos processos. O Sebrae é um dos parceiros previstos para a execução dos programas, principalmente no atendimento a pequenos negócios, que tendem a ter mais dificuldade para reorganizar escalas e contratar novos funcionários. O formato final das linhas ainda está em elaboração.

Entre as medidas já definidas está a ampliação do limite de crédito para pequenas empresas, que passou de R$ 250 mil para R$ 500 mil, incluindo recursos para capital de giro. A mudança busca dar fôlego financeiro aos empreendimentos durante o período de transição, quando os custos com pessoal podem subir por causa da necessidade de reforçar equipes. Durigan, porém, não anunciou nenhuma desoneração da folha de pagamentos para compensar a redução da jornada, reivindicação apresentada por setores empresariais durante a tramitação da proposta. Na visão do ministro, o apoio deve vir principalmente por meio de crédito e de ganhos de produtividade, e não por renúncia de receitas, em um momento em que o governo busca equilibrar as contas públicas e cumprir as metas fiscais definidas no arcabouço.

O ministro minimizou o impacto da mudança sobre a economia como um todo. De acordo com ele, entre 68% e 70% dos empregos formais do país já não seguem o modelo de seis dias de trabalho para um de descanso, o que reduz o alcance das adaptações necessárias. Durigan classificou o fim da escala como uma mudança civilizacional, capaz de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e de estimular novas formas de organização do trabalho. Os setores mais afetados devem ser comércio, serviços e algumas atividades industriais que funcionam todos os dias da semana, nos quais a escala 6×1 ainda é comum. Para esses segmentos, a transição vai exigir negociação com os trabalhadores e, em muitos casos, a contratação de mais pessoas para cobrir os turnos que ficarem descobertos.

Durigan também falou sobre a política econômica de forma mais ampla. O ministro reconheceu que os juros elevados continuam sendo um desafio para o crescimento e para o custo de financiamento das empresas, inclusive daquelas que precisarão investir para se adaptar à nova jornada. Sobre as contas públicas, ele afirmou que o ajuste fiscal seguirá de maneira gradual, sem mudanças bruscas de rumo, e usou uma expressão popular para dizer que o governo não pretende dar um cavalo de pau na economia. A declaração ocorre em meio ao debate eleitoral, no qual a condução da política fiscal e o futuro dos gastos públicos estão entre os temas mais discutidos pelos candidatos e acompanhados de perto pelos investidores e pelo setor produtivo, que cobram previsibilidade sobre as regras dos próximos anos.

O fim da escala 6×1 foi uma das principais pautas trabalhistas do ano e mobilizou centrais sindicais, empresários e parlamentares durante meses de discussão. As empresas devem ter um período para reorganizar suas escalas, e o ritmo dessa adaptação deve variar bastante entre setores e regiões. Entidades empresariais argumentam que a mudança eleva custos, especialmente para pequenos negócios do comércio e dos serviços, enquanto representantes dos trabalhadores defendem que a redução da jornada traz ganhos de saúde, convivência familiar e produtividade. O pacote de crédito e capacitação anunciado pela Fazenda é a primeira resposta concreta do governo às preocupações do setor produtivo, mas ainda não há detalhes sobre o volume total de recursos nem sobre o calendário de lançamento das linhas, que dependem de acertos com os parceiros.

Estudo da USP aponta risco de retração no interior sem reajuste de benefícios

Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, ligado à Faculdade de Economia da USP, indica que a estagnação ou o corte de benefícios sociais pode provocar retração econômica em grande parte dos municípios brasileiros, sobretudo no interior. Segundo os pesquisadores, aposentadorias, o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada respondem por quase metade do orçamento das famílias mais pobres. Para domicílios com renda de até um salário mínimo e meio por pessoa, essas transferências podem chegar a 50% de tudo o que entra em casa. Por isso, qualquer mudança nas regras de reajuste tem efeito direto sobre o consumo local, o comércio e os serviços das cidades menores, que dependem fortemente desse dinheiro para manter a atividade econômica funcionando durante o ano, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.

O levantamento mostra que o peso das transferências é muito maior fora das grandes regiões metropolitanas. Dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil estão no interior, onde a participação dos benefícios na renda chega a ser aproximadamente o dobro da observada nas capitais e em seus arredores. O Ceará ilustra bem essa diferença: na capital, os benefícios representam cerca de 22% da renda das famílias, enquanto no interior do estado a fatia sobe para 40%. A codiretora do centro, Luiza Nassif, destacou que essa dependência faz com que as decisões sobre reajustes tenham impacto concentrado justamente nas regiões com menos alternativas de emprego e renda, ampliando desigualdades regionais já existentes no país. Em muitas dessas cidades, o pagamento mensal dos benefícios movimenta feiras, mercados e pequenos comércios, e qualquer redução se espalha rapidamente pela economia local.

Os pesquisadores simularam o que teria ocorrido sem os aumentos reais concedidos aos benefícios nos últimos anos. Nesse cenário, a renda no interior seria entre 6,8% e 10,8% menor. Os efeitos mais fortes apareceriam no Rio Grande do Norte, no Amapá e no Piauí, com perdas de 17% a 18%. Amazonas, Sergipe e Pernambuco teriam quedas de cerca de 15%, enquanto Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia registrariam reduções entre 10% e 13%. Mesmo nos estados mais ricos o impacto seria relevante: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul teriam perdas próximas de 6,5% na renda das famílias que vivem fora das áreas metropolitanas. A simulação ajuda a medir o papel que a política de reajustes teve na renda do interior nos últimos anos.

O estudo também estimou o efeito sobre a pobreza. Sem os reajustes reais, cerca de 2,7 milhões de pessoas teriam caído para a condição de pobreza, das quais 2,4 milhões para a extrema pobreza. Os maiores aumentos ocorreriam na Bahia, com até 336 mil pessoas a mais nessas situações, em São Paulo, com 263 mil, e em Minas Gerais, com 251 mil. Maranhão, Pará e Ceará também teriam acréscimos superiores a 200 mil pessoas cada. Os números mostram que os benefícios funcionam como uma rede de proteção que sustenta não apenas as famílias atendidas, mas também a economia de cidades inteiras, onde o comércio e os serviços dependem do dinheiro que circula a partir dessas transferências mensais. O efeito, de acordo com os autores, vai muito além das próprias famílias beneficiadas.

A pesquisa chega em meio às discussões sobre o equilíbrio das contas públicas e a política de valorização do salário mínimo, que serve de referência para aposentadorias e para o BPC. Propostas de desvincular os benefícios do mínimo ou de limitar seus reajustes aparecem com frequência no debate fiscal, como forma de conter o crescimento das despesas obrigatórias. Os autores do estudo argumentam que essas medidas precisam considerar o efeito sobre as economias locais, porque a redução da renda das famílias mais pobres tende a se espalhar para o comércio, para os serviços e para a arrecadação dos municípios. Na avaliação deles, a discussão sobre corte de gastos deve levar em conta a desigualdade regional e o papel das transferências na sustentação da atividade no interior do país, onde vive boa parte da população mais pobre.

Café de Minas Gerais bate recorde de preço em leilão no Japão

Um café produzido em Carmo de Minas, na Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, alcançou o maior preço já pago por um grão brasileiro nos leilões da Alliance for Coffee Excellence. O lote da Fazenda Santuário Sul, do produtor Luiz Paulo Dias Pereira Filho, foi vendido nesta sexta-feira (16) por US$ 26.456 a saca de 60 quilos, cerca de R$ 134,6 mil. O valor equivale a US$ 200 por libra-peso e supera em 40% o recorde anterior do país, registrado em 2018. O comprador foi a empresa japonesa Snow Beans Coffee, e o arremate ocorreu durante a SCAJ 2026, uma das principais feiras de cafés especiais da Ásia, realizada em Tóquio. Na conversão por quilo, o preço passa de R$ 2 mil, muito acima do café comum vendido nos supermercados.

O grão premiado é da variedade geisha, um tipo de café arábica originário da Etiópia que ganhou fama internacional em 2004, quando lotes produzidos no Panamá passaram a bater recordes em competições. A variedade é conhecida pelo perfil sensorial complexo, com notas florais e frutadas, e costuma alcançar preços muito acima da média nos mercados de cafés especiais. O lote mineiro passou pelo processamento natural, no qual o fruto é colhido e seco inteiro, com a casca, antes do beneficiamento. Esse método exige mais cuidado no controle da secagem, mas pode realçar a doçura e a complexidade da bebida. A combinação entre a variedade rara, o processamento e as condições de clima e altitude da Mantiqueira explica o desempenho do café na avaliação dos compradores e dos jurados internacionais.

A Alliance for Coffee Excellence é a organização responsável pelo Cup of Excellence, concurso considerado uma espécie de Oscar do setor de cafés especiais. A entidade reúne países produtores como Brasil, Costa Rica, El Salvador, Honduras, Guatemala e Nicarágua, e organiza leilões internacionais para os lotes mais bem avaliados pelos jurados. O modelo permite que pequenos e médios produtores alcancem compradores de vários países e obtenham preços muito superiores aos do mercado tradicional. Após a venda, o produtor agradeceu o apoio da Associação Brasileira de Cafés Especiais, que trabalha na promoção do café brasileiro de alta qualidade no exterior. O resultado reforça a reputação da Serra da Mantiqueira como uma das principais regiões de cafés finos do país e da América Latina, região já conhecida por lotes premiados em concursos de qualidade.

O recorde acontece em um momento de forte valorização do café brasileiro no mercado internacional. Dados do conselho que reúne os exportadores mostram que a receita com as vendas externas do produto no mês de agosto saiu de cerca de US$ 453 milhões, em 2016, e chegou a US$ 1,33 bilhão neste ano, alta de mais de 190% em dez anos, em valores nominais. O avanço reflete tanto a alta dos preços internacionais quanto o esforço para conquistar novos mercados, como Japão e China, que têm ampliado o consumo de cafés de qualidade superior. O Japão, em particular, é um comprador tradicional de cafés especiais e costuma pagar valores elevados por lotes raros, o que torna eventos como a feira de Tóquio uma vitrine importante para os produtores brasileiros e suas associações.

Para os produtores, o resultado mostra o potencial de agregar valor ao café por meio da qualidade, em vez de competir apenas em volume. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial do grão, mas grande parte da produção ainda é vendida como commodity, com preços definidos nas bolsas internacionais. O segmento de cafés especiais, embora menor, tem crescido nos últimos anos e atraído investimentos em variedades diferenciadas, técnicas de pós-colheita e certificações. Leilões como o realizado no Japão funcionam como referência de preço e estimulam outros cafeicultores a investir em qualidade. A expectativa do setor é de que o recorde ajude a ampliar a visibilidade dos cafés brasileiros e a abrir espaço para novos negócios com compradores asiáticos e europeus, além de valorizar as regiões produtoras e as famílias que vivem da cafeicultura.

Alckmin e Leite projetam licença da fábrica da CMPC nos próximos dias

O vice-presidente Geraldo Alckmin e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, se reuniram nesta sexta-feira (16) na sede da agência de investimentos gaúcha em São Paulo para discutir projetos estratégicos para a economia do estado. Um dos principais assuntos foi a nova fábrica de celulose da chilena CMPC em Barra do Ribeiro, às margens do Guaíba, investimento estimado em R$ 27 bilhões. O empreendimento esbarrou no licenciamento ambiental e depende de uma manifestação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas para que a licença prévia seja emitida. Após o encontro, Leite disse que acompanha o encerramento das tratativas entre a empresa e a fundação e que espera uma solução nos próximos dias, o que permitiria destravar as etapas seguintes da obra. O valor coloca o projeto entre os maiores investimentos privados previstos para o estado.

O projeto, batizado pela empresa de Projeto Natureza, inclui a fábrica, um terminal portuário e outras estruturas no Rio Grande do Sul. A licença prévia, que cabe à fundação estadual de proteção ambiental, atesta a viabilidade ambiental do empreendimento. Depois dela, a empresa ainda precisa obter a licença de instalação, que é o documento que efetivamente autoriza o início da construção. Em junho, o órgão ambiental gaúcho já aguardava o parecer da Funai para concluir essa etapa. A fundação indígena havia se posicionado de forma favorável ao trâmite e afirmado que não lhe cabia alterar ou ampliar o objeto do licenciamento. O processo seguiu mesmo sob questionamentos, por orientação da procuradoria do estado, e houve forte temor de que o Rio Grande do Sul perdesse o investimento para outro estado ou país.

O principal obstáculo veio do Ministério Público Federal, que entrou na Justiça pedindo a suspensão da licença e defendendo uma consulta a um número muito maior de indígenas, quilombolas e pescadores do estado. A empresa considera essa exigência inviável e argumenta que ela não fazia parte do que a Funai havia solicitado inicialmente. O caso tramita na primeira instância da Justiça Federal, onde um primeiro despacho rejeitou o caráter urgente da suspensão e deu prazo para que as partes se manifestassem. O Ministério da Pesca, por meio da Advocacia-Geral da União, também se manifestou a favor do andamento atual do licenciamento. Comunidades indígenas, por sua vez, chegaram a reclamar de não terem sido ouvidas antes de o Ministério Público apresentar a ação, o que ampliou a disputa em torno do caso, ainda pendente de nova decisão judicial.

Além da fábrica de celulose, Alckmin e Leite trataram da extensão do prazo de suspensão do pagamento da dívida do estado com a União, concedida após as enchentes de 2024. O pedido já havia sido apresentado pelo governador à ministra Miriam Belchior no dia anterior. Mesmo em fim de mandato, Leite quer usar parte desses recursos para financiar em larga escala projetos de irrigação, pensando nos períodos de estiagem que costumam provocar perdas na produção agrícola gaúcha. A irrigação é considerada estratégica para reduzir a vulnerabilidade do agronegócio do estado às variações climáticas, que nos últimos anos alternaram secas severas e chuvas extremas, com prejuízos bilionários para produtores e para a economia regional. A suspensão foi concedida para liberar recursos à reconstrução depois da tragédia climática que atingiu o estado.

A conversa incluiu ainda a atração de empresas de data centers, de nuvem, de processamento de dados e de inteligência artificial, a partir da criação de uma Zona de Processamento de Exportação de serviços e infraestrutura digitais no Rio Grande do Sul. Outro tema foi a ampliação da oferta de gás natural, com a previsão de instalar um terminal de gás natural liquefeito no porto de Rio Grande, no sul do estado. O projeto é visto como importante para garantir energia à indústria e atrair novos empreendimentos. No fim da reunião, Leite presenteou o vice-presidente com azeites de oliva produzidos em Cachoeira do Sul, aproveitando a data que celebra o anestesista, profissão de formação de Alckmin, que é médico. Também participou do encontro o vice-presidente da agência gaúcha de investimentos, Eduardo Lorea.

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