
Alertas de tempestade com até 100 milímetros de chuva e ventos de 100 km/h cobrem áreas de seis estados do Centro-Sul nesta segunda-feira, depois de um domingo de temporais que deixou duas jovens mortas em Jundiaí e um homem desaparecido em Belo Horizonte. O resumo traz ainda os estragos em Campinas e o alerta de cientistas sobre a Amazônia.
Inmet alerta para tempestades com até 100 mm de chuva em seis estados
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alerta laranja de perigo para tempestades nesta segunda-feira (26) em áreas de seis estados do Centro-Sul: Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. A previsão indica chuva de até 60 milímetros por hora ou 100 milímetros ao longo do dia, ventos que podem chegar a 100 km/h e queda de granizo. O aviso começou à meia-noite e vale até as 23h59.
Em São Paulo, o alerta abrange a maior parte do estado, incluindo a Região Metropolitana, Campinas, Ribeirão Preto, Bauru e o Vale do Paraíba, e quase todo o território fluminense também está na lista. No Espírito Santo, 51 municípios, entre eles os cinco da Grande Vitória, ficam sob o aviso laranja até as 12h, e outros 77 seguem em alerta amarelo o dia todo. O instituto aponta risco de cortes de energia, queda de árvores e alagamentos.
A instabilidade está ligada ao avanço de uma frente fria pela costa do Sudeste, de acordo com o Inmet. Criado em 1909 e vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária, o órgão divulga avisos de eventos severos pelo sistema Alert-AS, no padrão escolhido pela Organização Meteorológica Mundial. Em emergências, a orientação é acionar a Defesa Civil pelo telefone 199 e o Corpo de Bombeiros pelo 193, além de não se abrigar sob árvores durante as rajadas de vento.
Enxurrada mata duas jovens em Jundiaí e temporal interrompe trens na região
Duas jovens morreram na madrugada deste domingo (25) em Jundiaí, no interior paulista, depois de serem arrastadas pela correnteza ao tentar atravessar um córrego no bairro Casa Branca, na saída de uma festa em um clube. O Corpo de Bombeiros foi chamado por volta das 4h56. Uma das vítimas foi encontrada às margens do córrego e levada a um hospital, mas não resistiu; a outra, uma adolescente de 16 anos, foi localizada já sem vida.
Segundo a Defesa Civil, Jundiaí acumulou 79 milímetros de chuva entre a noite de sábado e a madrugada, e Cabreúva, 83 milímetros. Um ponto de alagamento interrompeu a Linha 7-Rubi entre as estações Botujuru e Campo Limpo Paulista das 5h09 às 9h22, e ônibus do sistema Paese atenderam os passageiros. Na cidade, a margem do Rio Jundiaí desabou perto de uma ponte na Avenida Antonio Frederico Ozanam, e moradores do bairro Jundiaí Mirim ficaram ilhados.
As chuvas que atingiram o território paulista desde a noite de sábado (24) também causaram alagamentos e quedas de árvores na capital, onde o Centro de Gerenciamento de Emergências registrou 16 pontos de alagamento em 24 horas. O Rio Jundiaí nasce na Serra da Pedra Vermelha, em Mairiporã, percorre 123 quilômetros por oito municípios, entre eles Campo Limpo Paulista e Jundiaí, e deságua no Tietê, na cidade de Salto.
Temporal em Belo Horizonte derruba árvores e deixa vigia desaparecido
Uma chuva forte com ventania atingiu Belo Horizonte e a região metropolitana na tarde deste domingo (25), dia do segundo turno, com relatos de granizo, ruas alagadas e bairros sem energia. Na Avenida Cristiano Machado, no bairro São Gabriel, um vigia foi atingido por um tapume de metal arrancado pelo vento, caiu no córrego do Onça e foi levado pela correnteza. O Corpo de Bombeiros fazia buscas, e o homem ainda não havia sido encontrado.
Árvores caíram sobre uma casa no bairro Floresta, sobre um carro no Coração Eucarístico e em frente a uma igreja no bairro Santo Antônio, e a Avenida Presidente Carlos Luz foi tomada pela enxurrada. Segundo a Defesa Civil da capital, a chuva foi extremamente forte em três regionais. A Cemig atribuiu as falhas a um evento climático atípico e informou que mais de 200 mil clientes foram afetados; cerca de 163 locais de votação em Minas ficaram sem luz.
O aviso municipal de chuva forte em Belo Horizonte foi estendido até esta segunda-feira (26), com raios e rajadas de vento de cerca de 60 km/h. O córrego do Onça nasce em Contagem e atravessa a capital por cerca de 38,7 quilômetros até o rio das Velhas, recebendo nomes diferentes ao longo do caminho. A bacia, em uma área de grande adensamento populacional, sofre com assoreamento e com o lançamento de esgoto dos dois municípios.
Chuva de 101 milímetros provoca alagamentos e fecha parques em Campinas
Em Campinas, o volume de chuva acumulado do fim da noite de sábado (24) até a madrugada de domingo (25) chegou a 101,3 milímetros, segundo a Defesa Civil, e deixou ruas alagadas e interditadas, árvores no chão e muros derrubados. A maior rajada de vento, de 47,2 km/h, foi registrada às 23h40 de sábado pelo Cepagri, da Unicamp. O balanço da prefeitura apontou cinco quedas de árvores, três de muros, oito vias alagadas e um imóvel destelhado.
O transbordamento do Rio Atibaia inundou o Beco do Mokarzel, e houve alagamentos em bairros como Jardim Guarani e Jardim das Bandeiras e no distrito de Sousas. Uma erosão de grandes proporções foi identificada na Rua Piracicaba. Não havia registro de vítimas nem de desabrigados até a divulgação do levantamento. A prefeitura fechou os 25 parques e bosques públicos da cidade e informou que a situação seria reavaliada nesta segunda-feira (26).
A regra municipal determina a suspensão das visitas aos parques quando a chuva acumulada passa de 80 milímetros em 72 horas. O Rio Atibaia nasce em Bom Jesus dos Perdões, da junção de rios ligados ao Sistema Cantareira, e percorre 165 quilômetros até formar o Rio Piracicaba, em Americana. Ele abastece 95% da população de Campinas e integra as bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí.
Cientistas alertam que aquecimento e secas aproximam a Amazônia do colapso
A Amazônia já registra aquecimento de 2 °C a 3 °C, acima da média global, e se aproxima do limite a partir do qual a floresta perde a capacidade de se regenerar, segundo pesquisadores. O climatologista Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia, afirma que, se a savanização avançar, mais de 200 bilhões de toneladas de gás carbônico podem ser lançadas na atmosfera. Ele estima que esse ponto pode ser atingido por volta de 2040.
No sul do bioma, o período seco se estende hoje por quatro a cinco semanas além do que durava quatro décadas atrás, e a chuva dessa época diminuiu até 30%. Fernando Elias, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, explica que árvores mortas deixam de absorver carbono e passam a emiti-lo, e que o fogo se tornou o principal vetor de degradação. Como exemplo, ele lembra os botos que morreram aos montes em 2023, quando lagos do Amazonas esquentaram.
Nobre foi o primeiro a apontar, em estudos iniciados em 1988 na Universidade de Maryland, a possibilidade de a Amazônia virar savana por causa do aquecimento global. Formado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica em 1974, ele começou a trabalhar no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia no ano seguinte e coordenou o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, de 1993 a 2000.