
A uma semana do segundo turno, testes com ferramentas de inteligência artificial expuseram tratamento desigual entre Lula e Flávio Bolsonaro, os candidatos intensificaram atos pelo país e o Congresso promulgou o fim da escala 6×1. O dia teve ainda panelaços, investigação no STJ, carta do governo Trump e nova pesquisa sobre polarização.
Testes com inteligência artificial mostram tratamento desigual entre Lula e Flávio
Testes realizados nos dias 14 e 16 de outubro com sete ferramentas de inteligência artificial mostraram que o Grok, assistente da empresa de Elon Musk integrado à rede social X, recusou um pedido para produzir uma peça de propaganda eleitoral para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas atendeu ao mesmo tipo de solicitação para o senador Flávio Bolsonaro (PL), ainda que com uma imagem simples, que o próprio sistema chamou de minimalista. A Meta AI, disponível no WhatsApp, negou os dois pedidos. ChatGPT, da OpenAI, Gemini, do Google, e Claude, da Anthropic, produziram as artes para ambos os candidatos. A chinesa DeepSeek não gera imagens na versão gratuita e ficou fora da comparação, enquanto o Manus, também chinês, usa modelos de imagem da OpenAI e apresentou resultados semelhantes aos do ChatGPT.
Foram feitos quatro pedidos a cada ferramenta. Dois solicitavam artes com o nome e o número de cada candidato, um em verde e amarelo e outro em vermelho. Os outros dois pediam cartazes de campanha para personagens fictícios do folclore e da literatura infantil brasileira, a boneca Emília e o Saci Pererê, sem mencionar partidos. No cartaz da Emília, o Grok usou o número 13, do PT, e justificou a escolha dizendo que aquele havia sido o primeiro número citado na conversa. O ChatGPT colocou o 22 no cartaz da boneca e o 13 no do Saci. O Gemini incluiu, sem que houvesse pedido, uma foto do senador na arte de Flávio, mas não fez o mesmo com Lula, o que só ocorreu depois de solicitação expressa. O Claude entregou artes de layout idêntico e números neutros para os personagens.
Cada pedido foi repetido em cinco contas diferentes e em cinco abas anônimas por ferramenta, segundo a metodologia descrita pelos autores do levantamento. A avaliação se limitou à geração de imagens a partir de comandos específicos e não mediu o comportamento dos sistemas em respostas por texto. Os responsáveis pelos testes ressaltaram que modelos de inteligência artificial funcionam de forma probabilística, de modo que os resultados podem mudar em novas tentativas. Também circulam nas redes sociais imagens atribuídas à Meta AI, como a de uma capivara gerada com o número 22, mas essas peças não puderam ser verificadas de forma independente e não foram obtidas nas mesmas condições. No caso da ferramenta da Meta, os testes foram repetidos em dois dias para verificar se as novas regras da empresa, que bloqueiam conteúdo sobre candidatos, tinham sido flexibilizadas, e a resposta foi igual nas duas ocasiões.
O levantamento ocorre em meio a uma disputa judicial envolvendo a Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp. Um dia antes, o ministro Marco Aurélio Bellizze, integrante do Tribunal Superior Eleitoral, mandou que a empresa não interfira na distribuição de conteúdo político-eleitoral de nenhum dos dois candidatos até o fim do segundo turno, sob pena de multa diária de R$ 500 mil. A decisão atendeu a uma ação da campanha de Lula, que acusou a plataforma de falhar de forma reiterada na entrega de suas publicações e de permitir que sua ferramenta de inteligência artificial criasse imagens favoráveis a Flávio enquanto barrava conteúdo favorável ao petista. A coligação do presidente sustentou que o problema prejudicava sua comunicação com o eleitorado na fase decisiva da campanha.
Em nota divulgada na sexta-feira (16), a Meta negou ter favorecido qualquer candidato e afirmou que não toma partido nesta nem em nenhuma outra eleição. A empresa reconheceu, porém, que a conta usada pela campanha de Lula para impulsionar publicações chegou a ser suspensa por erro e que incidentes técnicos recentes afetaram as duas campanhas. Segundo a companhia, uma lacuna em seus mecanismos de proteção permitiu que sua ferramenta de inteligência artificial produzisse materiais de campanha favoráveis ao senador. A Meta declarou ainda que a orientação política de uma publicação não interfere na forma como seus sistemas a ordenam e entregam, e que suas regras valem igualmente para todos. O episódio ampliou o debate sobre o papel das grandes empresas de tecnologia na eleição, que terá a votação do segundo turno no domingo, 25 de outubro, em todo o país.
Lula e Flávio intensificam agenda pelo país na última semana antes do segundo turno
Faltando oito dias para o segundo turno, marcado para 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) intensificaram a mobilização neste fim de semana e programaram compromissos em cidades de todas as regiões do país até a véspera da votação. Neste domingo (18), Flávio participa pela manhã de um ato na Avenida Paulista, em São Paulo, e à noite, às 20h, vai ao primeiro debate presidencial do segundo turno, organizado por um grupo de emissoras de rádio e televisão. Lula ficará em Brasília durante o dia para se preparar para o confronto. A presença dos dois chegou a ser incerta: na terça-feira (13), Flávio anunciou que não iria ao debate, e Lula gravou em seguida um vídeo confirmando sua participação. No dia seguinte, o senador recuou e disse que compareceria.
A agenda divulgada pelas campanhas, sujeita a alterações, prevê que Lula vá a Porto Alegre na segunda-feira (19), enquanto Flávio estará em Marabá, no Pará, pela manhã, e em Manaus à noite. Na terça-feira (20), o presidente deve passar por São Luís e pela região de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, e a programação do senador ainda não estava definida. Na quarta-feira (21), Lula tem compromissos em Brasília e em Belo Horizonte, incluindo uma sabatina na televisão, e Flávio prevê atividades em Fortaleza. Na quinta-feira (22), Lula se dedicará à preparação para o último debate, marcado para a sexta-feira (23) no Rio de Janeiro. No sábado (24), o petista planeja atos no Rio e em São Paulo, e o senador terá compromissos em Belo Horizonte pela manhã e no Rio à tarde, com carreatas.
No dia da votação, Lula deve votar em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e acompanhar a apuração na capital paulista. Flávio pretende votar no Rio de Janeiro e seguir a contagem dos votos em Brasília. Minas Gerais aparece como um dos focos centrais das duas campanhas nesta reta final. O estado é o segundo maior colégio eleitoral do país e, desde 1989, todos os presidentes eleitos venceram ali. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio recebeu 48,24% dos votos válidos no estado, contra 43,33% de Lula, que havia vencido em Minas em 2022 com 48,29%. O presidente esteve na sexta-feira (16) em Juiz de Fora e Ipatinga, com aliados como a prefeita Marília Campos, enquanto Flávio fez ato em Capelinha na quinta-feira (15), ao lado de apoiadores como o deputado Nikolas Ferreira.
O professor Camilo Aggio, da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador de um instituto nacional dedicado ao estudo da democracia digital, afirmou que o interesse pelo estado se explica pelo grande número de eleitores e pelo fato de Minas funcionar como um retrato em escala reduzida da disputa nacional. Especialistas também descrevem o estado como pendular, porque o eleitorado mineiro tem alternado entre campos políticos nas últimas três décadas. Os resultados do primeiro turno mostraram mapas distintos dentro do estado: Flávio venceu em nove das dez maiores cidades mineiras, enquanto Lula foi o mais votado em um número maior de municípios. Para analistas, essa divisão ajuda a explicar por que ambos voltaram ao estado, cada um tentando ampliar a vantagem onde já é forte e reduzir a distância nas regiões em que ficou atrás.
A abstenção é outro fator observado pelas campanhas. No primeiro turno, cerca de 22% dos eleitores mineiros não compareceram às urnas, o que corresponde a 3.735.098 pessoas, e o índice nacional chegou a 21,08%, um recorde, com mais de 33 milhões de ausentes. Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (16) indicou que 96% dos eleitores pretendem votar no segundo turno, 1% diz que não pretende comparecer e 3% ainda não decidiram. Entre os eleitores de cada um dos candidatos, 98% afirmaram que vão votar. Os números reforçam a estratégia de mobilização adotada pelas duas candidaturas, que investem em atos de rua, carreatas e presença nas redes sociais para levar seus apoiadores às seções eleitorais no domingo, 25 de outubro, quando o país escolherá o próximo presidente da República.
Defesa de Vorcaro pede ao STF investigação sobre vazamento de conversas
A defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro enviou na sexta-feira (16) uma petição ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, pedindo a abertura de investigação sobre o vazamento de áudios, mensagens e outros conteúdos extraídos do celular dele, apreendido durante a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. No documento, os advogados afirmam que informações mantidas sob acesso restrito das autoridades passaram a circular publicamente e que a intimidade e a atividade profissional do cliente têm sido expostas cada vez mais. A defesa classificou a situação como um processo de linchamento público e reclamou, em especial, da divulgação de conversas do ex-banqueiro com os próprios advogados. Para os defensores, o caso não tem precedentes na história do país, por permitir que um investigado tenha a privacidade exposta sem confirmação sobre a veracidade do material ou a forma como foi obtido.
Os advogados sustentam que a apreensão de um aparelho em uma investigação não torna seus dados de livre circulação e que o material divulgado não pode servir de base para novas apurações contra o cliente. Segundo a petição, se houve divulgação ilegal, a única consequência jurídica possível seria a instauração de inquérito para identificar os responsáveis pelo vazamento e puni-los criminalmente. Os advogados querem que a apuração identifique servidores que manusearam o aparelho por dever de ofício e também pessoas de fora que tenham obtido o conteúdo. A defesa também diz que não reconhece como verdadeiro todo o material divulgado e argumenta que parte dos conteúdos pode ter sido manipulada. A manifestação foi apresentada depois de uma sequência de reportagens baseadas em mensagens e gravações atribuídas ao ex-banqueiro, publicadas ao longo das últimas semanas.
Entre os materiais divulgados estão uma gravação em que Vorcaro supostamente relata negociações para financiar um documentário e mensagens sobre uma suposta rede de prostituição envolvendo mulheres estrangeiras, entre elas refugiadas. A Polícia Federal instaurou inquérito sobre o envolvimento delas e sobre eventuais ilegalidades no pagamento pelos encontros. Os investigadores examinam mensagens atribuídas ao ex-banqueiro e a terceiros que abordam da seleção das mulheres, de pagamentos e da logística de eventos realizados no Brasil e no exterior. Vorcaro rejeita a acusação de ter explorado mulheres e contesta a origem, a veracidade e o contexto de parte das mensagens. Esse argumento foi repetido na petição enviada ao Supremo, em que a defesa insiste que o material não deve ser usado para responsabilizá-lo. Para os advogados, a divulgação fragmentada de trechos impede que o investigado exerça plenamente o direito de defesa.
Vorcaro está preso desde março deste ano e permanece custodiado no presídio da Papudinha, no Distrito Federal. Ele é alvo da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras no Banco Master, instituição que controlava, e a tentativa de compra do banco pelo Banco de Brasília, instituição pública ligada ao governo do Distrito Federal. O caso ganhou dimensão política durante a campanha eleitoral, porque mensagens e documentos ligados ao ex-banqueiro passaram a mencionar autoridades e figuras públicas de diferentes campos. Nas últimas semanas, a divulgação de conteúdos atribuídos ao celular apreendido alimentou disputas entre aliados dos dois candidatos à Presidência, que trocaram acusações sobre supostas relações com Vorcaro. Investigações paralelas da Polícia Federal também apuram o destino de recursos enviados ao exterior pelo grupo do ex-banqueiro.
Caberá ao presidente do Supremo decidir sobre o pedido. Se for aceito, poderá resultar em uma apuração formal sobre quem teve acesso ao material apreendido e de que forma os conteúdos chegaram ao conhecimento público. A Polícia Federal, por sua vez, já negou em outra ocasião a existência de um depoimento de Vorcaro sobre o presidente Lula, uma das versões que circularam durante a campanha. Também veio a público que Flávio Bolsonaro usou, em 2025, um jatinho ligado ao ex-banqueiro, o que levou adversários do senador a explorar o tema. As investigações sobre o Banco Master seguem em andamento, com análise de documentos e mensagens obtidos nas fases anteriores da operação, e os desdobramentos do caso continuam a repercutir em Brasília às vésperas do segundo turno da eleição presidencial.
Governo Trump diz apoiar eleição livre no Brasil sem se comprometer com o resultado
O Departamento de Estado dos Estados Unidos respondeu a um grupo de parlamentares democratas sem assumir o compromisso de reconhecer o resultado das eleições presidenciais brasileiras. Em carta assinada na quinta-feira (15) por Katherine Bowles, secretária-assistente do escritório de assuntos legislativos do órgão, o governo de Donald Trump declarou defender que os brasileiros possam escolher seus governantes em eleições livres e justas. O texto acrescenta que Washington continuará dialogando com a população, o setor privado e o governo eleito para promover segurança, comércio recíproco, investimentos e prosperidade nos dois países. A resposta, no entanto, não tratou diretamente do pedido dos congressistas para que a Casa Branca se comprometesse a aceitar o resultado certificado pelas autoridades eleitorais brasileiras, ponto central da cobrança feita ao governo americano.
O documento foi encaminhado à deputada Delia Ramirez, que, com os colegas Pramila Jayapal e Jesús García, liderou uma iniciativa de 31 parlamentares, com participação do senador independente Bernie Sanders. Em carta enviada em 24 de setembro ao secretário de Estado, Marco Rubio, o grupo afirmou que a Casa Branca usava pressões de natureza econômica, diplomática e política para influenciar a disputa no Brasil e pediu respeito ao processo eleitoral. Os parlamentares também questionaram as sanções impostas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a classificação das facções Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como grupos terroristas e o cancelamento do visto da representante diplomática do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti. Algumas dessas perguntas ficou sem resposta direta na manifestação do Departamento de Estado.
Na carta, o governo americano defendeu as sanções aplicadas a Moraes, afirmando que elas se basearam em graves violações de direitos humanos. Moraes deixou a relação de pessoas punidas em dezembro de 2025. O Departamento de Estado também justificou a classificação das duas facções criminosas como organizações terroristas. No dia 1º de outubro, ao responder a perguntas de repórteres em Washington, Trump disse que acompanhava a eleição brasileira muito de perto, chamou o Brasil de um grande país e afirmou que a disputa era muito importante, mas não declarou apoio a nenhum candidato nem explicou como seu governo reagiria ao resultado. A posição evasiva tem sido observada com atenção em Brasília, a poucos dias da votação que vai definir o próximo presidente do país, marcada para o domingo, 25 de outubro.
Os congressistas democratas manifestaram preocupação com uma série de medidas adotadas pela administração Trump em relação ao Brasil, entre elas as tarifas comerciais e as sanções contra autoridades brasileiras, aplicadas durante o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo. Na avaliação dos autores da carta, essas ações ameaçavam enfraquecer as instituições do país e abalar a credibilidade da votação. Eles também apontaram possíveis ligações entre autoridades americanas e políticos brasileiros que buscaram moldar a posição de Washington sobre o Brasil. Os parlamentares alertaram para o risco de uma escalada capaz de romper relações bilaterais, caso Washington não aceite o resultado das urnas. O tema ganhou peso na campanha porque o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, é filho do ex-presidente cujo julgamento coincidiu com a adoção das sanções e das tarifas pelo governo americano.
Em outra iniciativa, divulgada no fim de setembro, três senadores do Partido Democrata, Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch, escreveram a Rubio para cobrar que Washington aceite o vencedor proclamado pela Justiça Eleitoral brasileira e preserve a normalidade das relações com o novo governo. Shaheen e Kaine integram o Comitê de Relações Exteriores do Senado americano, e o texto deles seguiu em grande parte a estrutura do documento assinado pelos deputados. Os senadores perguntaram de forma direta se o governo se comprometeria a reconhecer o resultado da votação. Até agora, a resposta oficial conhecida limita-se à defesa genérica de eleições livres. O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro está marcado para 25 de outubro, e a expectativa é de que a reação internacional ao resultado seja acompanhada de perto pelas duas campanhas.
Congresso promulga emenda que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada
O Congresso Nacional promulgou na sexta-feira (16), em sessão solene com a presença do presidente Lula, a emenda constitucional que extingue o regime de seis dias de trabalho para um de folga e assegura duas folgas semanais pagas, sem redução de salário. É a primeira alteração na jornada geral prevista na Carta desde que ela foi promulgada, em 1988. Na época da elaboração da Constituição, chegou a ser discutida a redução da jornada de 48 para 40 horas semanais, mas, sem apoio suficiente, o limite foi fixado em 44 horas. Agora, a Constituição passa a prever o teto de 40 horas por semana, com duas folgas em todo o país. A emenda foi publicada no mesmo dia em edição extra do Diário Oficial da União, o que marca o início do período de transição previsto no texto.
As novas regras não têm efeito imediato obrigatório. A emenda dá prazo de até um ano para a adequação dos contratos e prevê a redução gradual da jornada máxima. No primeiro ano de transição, o limite será de 42 horas semanais, e ao fim do período a jornada máxima chegará a 40 horas. Advogados trabalhistas explicam que o direito aos dois dias de repouso semanal remunerado poderá ser organizado com compensações previstas em acordos e convenções coletivas, desde que seja assegurada a média de duas folgas por semana. A proposta foi aprovada com ampla maioria nas duas Casas: na Câmara, recebeu 472 votos favoráveis e 22 contrários, e no Senado o placar foi de 75 a 1, com voto contrário apenas do senador Hamilton Mourão, do Republicanos do Rio Grande do Sul.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, anunciou em uma rede social que a Casa adotará as novas regras para seus terceirizados a partir da próxima semana. De acordo com o deputado, a medida deve beneficiar cerca de 1,7 mil trabalhadores terceirizados que atuam na Câmara no regime de uma folga semanal, entre eles mais de 600 mulheres. Motta disse ter pedido ao diretor-geral da Casa, Guilherme Barbosa Brandão, a aplicação imediata da mudança e afirmou que o tempo livre fará diferença para descanso, cuidados com a saúde, estudos e convivência com a família. Até a publicação do anúncio, o Senado e outros órgãos federais ainda não haviam informado quando pretendem adotar as novas regras para seus próprios contratos de prestação de serviços e para os trabalhadores terceirizados.
Apesar de a oposição ter votado majoritariamente a favor da proposta, nenhum senador oposicionista compareceu à sessão de promulgação. Durante a tramitação, a oposição no Senado defendeu uma discussão mais aprofundada e chegou a apresentar, por meio do senador Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, uma proposta alternativa baseada no pagamento por hora trabalhada, modelo que permitiria a redução proporcional do salário. Flávio chegou a defender publicamente essa alternativa, mas, depois de protestos em defesa da mudança, disse às vésperas da votação que seguiria o desejo da maioria da população. Na quarta-feira (14), ele votou a favor da emenda de forma remota, sem participar presencialmente da sessão, enquanto cumpria agenda de campanha fora de Brasília.
Integrantes do PL já falam em rever a jornada depois da eleição, o que mantém o tema presente na campanha presidencial. Lula, por sua vez, celebrou a aprovação da emenda durante agenda de campanha em Minas Gerais e tem apresentado a medida como uma conquista obtida durante seu governo. Com a promulgação, o país passa a comparar o novo modelo com o de outros países da América Latina, onde as jornadas semanais e os dias de descanso variam conforme a legislação de cada nação. A implementação efetiva, setor por setor, dependerá agora da adaptação das empresas, das negociações coletivas entre sindicatos e empregadores e da fiscalização do cumprimento das novas regras ao longo de todo o período de transição previsto na emenda constitucional promulgada pelo Congresso.
Panelaços contra Flávio Bolsonaro são registrados em várias capitais
Eleitores e apoiadores do presidente Lula promoveram panelaços em diversas cidades do país na noite de sexta-feira (16), antes e durante uma sabatina do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, transmitida ao vivo pela televisão. O barulho foi ouvido em Salvador, Curitiba, João Pessoa, Belém, Fortaleza, Brasília, Belo Horizonte, no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de cidades como Campinas, Juiz de Fora e Niterói. Na capital paulista, o barulho de panelas foi ouvido em bairros como Perdizes, Alto de Pinheiros e Vila Madalena, na zona oeste, Aclimação, na região central, e Vila Andrade, na zona sul. A mobilização foi convocada pelo deputado federal André Janones, da Rede de Minas Gerais, que desde o fim do primeiro turno lidera ações da campanha petista no ambiente digital e usou suas redes para chamar o protesto.
Janones divulgou a convocação em perfis no Instagram e no YouTube e em um grupo de mensagens chamado Exército do Lula, pedindo que os apoiadores batessem panelas a partir das 21h. Segundo o deputado, o ato era uma resposta aos panelaços realizados contra a ex-presidente Dilma Rousseff durante o governo dela. Em Salvador, um vídeo publicado nas redes sociais mostrou o contraste entre o barulho vindo de prédios residenciais e o silêncio em uma comunidade vizinha, o que gerou discussões sobre o perfil dos participantes. As imagens circularam amplamente ao longo do sábado e foram usadas tanto por apoiadores quanto por críticos do protesto para defender suas interpretações sobre o alcance da mobilização. A campanha de Flávio não comentou oficialmente os panelaços até a noite de sábado.
Em Maceió, o protesto terminou com um trabalhador levado à delegacia. O porteiro José Edmilson dos Santos foi algemado e conduzido à Central de Flagrantes durante o panelaço na Avenida Senador Rui Palmeira, no bairro de Ponta Verde. De acordo com testemunhas, a Polícia Militar foi acionada por um motorista que passou de carro pelo local, discutiu com os moradores, fez ameaças e tentou provocar uma briga. Os policiais entraram no condomínio e abordaram o porteiro na portaria, sob suspeita de perturbação do sossego. Ele assinou um termo circunstanciado de ocorrência e foi liberado em seguida. Moradores denunciaram truculência na abordagem, e a defesa do trabalhador classificou a ação como uma violação da liberdade de expressão. O caso foi registrado em vídeo por moradores e passou a circular nas redes sociais ao longo do sábado.
A Corregedoria da Polícia Militar de Alagoas, o Ministério Público Eleitoral e a seccional alagoana da Ordem dos Advogados do Brasil passaram a apurar a legalidade da conduta dos policiais envolvidos no caso do porteiro. Os órgãos vão examinar se a entrada dos policiais no condomínio e o uso de algemas respeitaram os limites legais, diante das denúncias de truculência feitas pelos moradores. Panelaços se tornaram uma forma recorrente de protesto político no Brasil na última década, sobretudo durante o governo de Dilma Rousseff, e voltaram a ser usados nesta campanha por apoiadores do atual presidente. A estratégia digital tem sido uma das apostas petistas na reta final, com canais em redes sociais que já reúnem milhões de seguidores e servem para convocar atos e responder a adversários.
O uso desses canais também passou a ser alvo de questionamentos na Justiça Eleitoral. O partido Novo entrou com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral contra atos musicais em defesa da democracia organizados por apoiadores do governo, e o PT pediu para desvincular o grupo Exército do Lula da estrutura oficial da campanha, depois de uma norma do tribunal sobre propaganda eleitoral. O canal de Janones, por sua vez, ultrapassou a marca de cinco milhões de seguidores. Do lado de Flávio, a campanha tem apostado em carreatas e atos de rua, como o previsto para a Avenida Paulista neste domingo (18). Os dois candidatos chegam à última semana antes da votação em clima de forte disputa nas ruas e nas redes sociais, com mobilizações previstas em várias capitais até o dia 25 de outubro.
STJ exonera servidor suspeito de vazar minutas a advogado ligado a Flávio
O Superior Tribunal de Justiça abriu uma investigação e exonerou na sexta-feira (16) um servidor da área de tecnologia sob suspeita de ter enviado rascunhos de decisões da corte ao advogado Willer Tomaz, que é amigo do candidato do PL ao Planalto, Flávio Bolsonaro. As conversas que sustentam a suspeita constam de um relatório da Polícia Federal encaminhado à Procuradoria-Geral da República. O servidor, Humberto Fontoura Pradera, ocupava o cargo de secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do tribunal e antes havia chefiado a assessoria de inteligência artificial da corte, participando de projetos de transformação digital e de sistemas internos. Em nota, o STJ informou que o presidente do tribunal, ministro Luis Felipe Salomão, tomou conhecimento dos fatos e que um procedimento interno de apuração já estava aberto desde a semana anterior.
Segundo o tribunal, como Pradera não era servidor concursado e ocupava cargo de confiança, ele foi exonerado. O STJ acrescentou que as medidas criminais estão em andamento, correm sob sigilo e que não vai se manifestar sobre elas. De acordo com o relatório da Polícia Federal, em uma das mensagens Pradera informou ao advogado que duas pessoas tinham sido designadas para tratar de determinado assunto e prometeu mantê-lo informado. Em outro episódio, encaminhou a fotografia de um documento exibido na tela de um computador. Questionado pelo advogado sobre o número de um processo, o servidor indicou um recurso especial e explicou que uma decisão provisória teria perdido efeito em razão do julgamento. Para os investigadores, a conversa mostra o compartilhamento de informações processuais acompanhado de explicações sobre seus possíveis efeitos.
O relatório também descreve conversas do advogado com o subprocurador-geral da República Antônio Carlos Simões Martins Soares, que se aposentou voluntariamente em março de 2026. A Polícia Federal elaborou uma planilha comparando o conteúdo de pareceres do subprocurador com recomendações feitas por Willer Tomaz. Em alguns casos, os trechos são idênticos e, em outros, a redação é semelhante à sugerida pelo advogado. Segundo os investigadores, em mais de uma ocasião o posicionamento do subprocurador seguiu as recomendações recebidas. O documento cita um recurso em que parte da mensagem enviada pelo advogado aparece depois, de forma praticamente literal, em um parecer, com referências a um desconto de quase 90%, ao valor de um fundo imobiliário, à exclusão de créditos considerados ruins e à atuação do administrador judicial.
Willer Tomaz é um dos donos do jato em que Flávio Bolsonaro viajou em janeiro do ano passado e já é investigado pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que apura um esquema bilionário de fraudes em benefícios do INSS. Em outra frente, a PF investiga suposta lavagem de dinheiro por meio de apostas em uma plataforma de jogos online. Segundo dados apresentados pela própria defesa do advogado em uma ação judicial, ele apostou R$ 6,6 bilhões em 18 meses, entre janeiro de 2025 e julho de 2026, e acumulou prejuízo de R$ 188,5 milhões. Também na sexta-feira, um juiz de São Paulo rejeitou a tentativa de Tomaz para reaver R$ 163 milhões perdidos em apostas, em processo no qual ele alegou vício em jogos e falhas da plataforma.
O caso amplia o conjunto de investigações que envolvem pessoas próximas aos candidatos durante a campanha presidencial, e a relação de amizade entre o advogado e Flávio Bolsonaro tem sido explorada por adversários do senador. O Superior Tribunal de Justiça é a corte responsável por uniformizar a interpretação da legislação federal em todo o país e julga um grande volume de recursos todos os anos, o que torna especialmente sensível qualquer suspeita de acesso indevido a decisões ainda não publicadas. Cabe agora à Procuradoria-Geral da República analisar o relatório produzido pela Polícia Federal e decidir sobre eventuais medidas contra os envolvidos. No caso do subprocurador aposentado, as suspeitas envolvem a elaboração de pareceres em processos que tramitavam no próprio tribunal, o que também deverá ser examinado pelos investigadores.
Pesquisa aponta que 78% dos brasileiros veem o país polarizado
Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (16) indica que 78% dos brasileiros consideram que o país vive uma situação de polarização, com a população separada em dois blocos de opiniões antagônicas. Outros 17% avaliam que há harmonia política, com convivência e respeito entre pessoas de ideias diferentes, e 5% não souberam responder. A percepção é semelhante entre os eleitores dos dois candidatos à Presidência: entre apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL), 81% veem o país polarizado, índice que cai para 75% entre os eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre os que pretendem votar em branco ou anular o voto, a proporção sobe para 84%. O levantamento foi realizado a pouco mais de uma semana do segundo turno, marcado para o domingo, 25 de outubro, em todo o território nacional.
A percepção de divisão é mais forte entre os mais escolarizados. Entre os eleitores com ensino superior, 93% disseram que o Brasil está polarizado, percentual que cai para 81% entre os que têm ensino médio e para 58% entre os que cursaram o ensino fundamental. A idade também influencia as respostas: 85% dos jovens de 16 a 24 anos consideram o país dividido, enquanto na faixa de 45 a 59 anos o índice é de 76% e, entre os entrevistados com 60 anos ou mais, de 68%. Os números sugerem que a sensação de antagonismo é mais intensa entre grupos que acompanham o debate político com maior frequência, especialmente nas redes sociais, onde as campanhas concentram boa parte de sua comunicação nesta reta final, com conteúdos produzidos diariamente para mobilizar apoiadores e atacar adversários.
As entrevistas foram feitas pessoalmente com 2.520 eleitores a partir de 16 anos, distribuídos por 153 cidades das cinco regiões, em 13 e 14 de outubro. O resultado pode variar dois pontos em qualquer direção, considerando confiança de 95%. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral com o código BR-00466/2026. Na mesma rodada, o instituto mediu a disposição dos eleitores de comparecer às urnas: 96% afirmaram que pretendem votar no segundo turno, 1% disse que não vai e 3% ainda não decidiram. Entre os que pretendem votar em branco, nulo ou em nenhum candidato, a intenção de comparecer é menor, de 63%. A abstenção no primeiro turno superou 21% do eleitorado, um recorde, o que mantém o comparecimento entre as principais preocupações das duas campanhas nesta última semana.
A mesma pesquisa mostrou apoio majoritário a mudanças no funcionamento do Supremo Tribunal Federal. Para 59% dos entrevistados, os ministros da corte deveriam ter mandato com tempo fixo, em vez de permanecer no cargo até a aposentadoria compulsória, aos 75 anos. Outros 65% defendem que decisões sobre temas importantes não sejam tomadas individualmente por ministros, nas chamadas decisões monocráticas, mas pelo plenário do tribunal. Além disso, 52% apoiam a redução do foro privilegiado. As propostas têm apoio tanto entre eleitores de Lula quanto entre os de Flávio, o que indica que a discussão sobre o Judiciário atravessa os dois campos políticos, ainda que com motivações e intensidades diferentes entre os grupos de eleitores que participaram do levantamento. O tema também aparece nas propostas dos candidatos, que têm sido questionados em entrevistas sobre a relação entre os Poderes.
A divisão do eleitorado tem marcado as disputas presidenciais brasileiras desde pelo menos 2014, quando o segundo turno foi decidido por margem estreita, e se aprofundou nas eleições de 2018 e 2022. Neste ano, o confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, repete em grande medida a configuração do pleito anterior, com os dois campos políticos concentrando quase todos os votos. Ao mesmo tempo, as campanhas tentam alcançar o eleitor que se declara cansado da disputa e que ainda pode decidir o resultado, inclusive parte dos que pretendem votar em branco ou anular. Os dados divulgados pelo instituto mostram que esse grupo é justamente o que mais percebe o país dividido. O segundo turno será realizado no domingo, 25 de outubro, quando os eleitores de todo o país voltarão às urnas para escolher entre os dois candidatos.