
Lula foi reeleito neste domingo (25) com 51,79% dos votos e conquistou o quarto mandato, enquanto Flávio Bolsonaro afirmou que pedirá a anulação do pleito por causa da prorrogação da votação determinada pelo ministro Cristiano Zanin. O resumo traz ainda o novo equilíbrio de forças no Congresso e as vagas que o presidente poderá preencher no Supremo.
Lula vence o segundo turno de virada e conquista o quarto mandato
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o segundo turno da eleição presidencial neste domingo (25) e garantiu mais um período no Palácio do Planalto. Com todas as urnas apuradas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou 51,79% dos votos para o petista, ou 64.256.232 votos, contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro (PL), que somou 59.826.041 votos. A vitória foi confirmada matematicamente pelo tribunal às 21h09, ainda durante a contagem.
O resultado inverteu o placar da primeira rodada, quando Flávio teve 47,03% e Lula ficou com 45,16%. Desde a volta das eleições diretas para presidente, nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar tinha conseguido vencer a disputa final. A chapa vitoriosa tem Geraldo Alckmin (PSB) como vice e reuniu sete partidos na coligação Brasil Pronto para Mais. A posse está marcada para 5 de janeiro de 2027, e o mandato vai até 2030.
Lula chegou à Presidência pela primeira vez em 2002, foi reeleito em 2006 e voltou ao cargo em 2022, ao derrotar Jair Bolsonaro numa disputa considerada a mais acirrada da história do país, decidida em 30 de outubro daquele ano. Nascido em Garanhuns, em Pernambuco, em 1945, o petista foi metalúrgico e dirigente sindical em São Bernardo do Campo, participou da fundação do PT em 1980 e disputou neste ano a sua sétima eleição presidencial.
Flávio Bolsonaro rejeita o resultado e diz que pedirá a anulação da eleição
O senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou na noite deste domingo (25) que não reconhece a derrota no segundo turno e que vai pedir a anulação da eleição presidencial. Em um breve pronunciamento em Brasília, ele atribuiu a posição à decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que estendeu em duas horas o horário de votação em todo o país, medida que o candidato classificou como inaceitável e como uma manobra suja.
Para o senador, a prorrogação passou por cima da competência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e criou tratamento desigual entre as seções, porque parte das urnas já estava fechada quando a ordem chegou; segundo ele, nunca será possível saber quantos votos teria recebido nesses locais. A extensão atendeu a um pedido da campanha de Lula, que relatou falta de ônibus em vários estados. A campanha de Flávio também havia solicitado mais tempo, alegando temporais e áreas alagadas no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais.
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio foi eleito senador pelo Rio de Janeiro em 2018 e se tornou neste ano o candidato do PL ao Planalto, com o apoio do pai. Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado depois de perder para Lula em 2022. Em 2023, o TSE condenou Flávio a pagar R$ 10 mil ao atual presidente por espalhar uma notícia falsa que associava o petista ao assassinato de Celso Daniel.
Zanin estende a votação até as 19h e a apuração é interrompida
O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou neste domingo (25) que a votação do segundo turno fosse estendida por duas horas em todo o país, até as 19h de Brasília. Pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as seções fechariam às 17h. Zanin foi sorteado relator depois que as campanhas de Lula e de Flávio Bolsonaro pediram mais tempo, e o TSE informou que a apuração, que já havia começado, foi suspensa por causa da ordem.
Em nota divulgada mais tarde, o ministro esclareceu que a medida valia somente para os locais onde as urnas ainda não tinham sido fechadas e que os votos das seções já encerradas seriam contados e totalizados. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, orientou que as seções abertas continuassem funcionando até as 19h, em cumprimento à decisão. A campanha petista havia relatado falta de ônibus, enquanto a do PL apontou condições climáticas adversas em algumas regiões do país.
A prorrogação do horário em todo o território nacional não tinha precedente. No segundo turno de 2022, o então presidente do TSE, Alexandre de Moraes, recusou estender a votação depois que o PT denunciou operações da Polícia Rodoviária Federal que atrasavam o deslocamento de eleitores no Nordeste. Zanin atuou como advogado de Lula nos processos da Operação Lava Jato e foi indicado ao STF pelo petista em 2023, na vaga aberta com a aposentadoria de Ricardo Lewandowski.
Lula terá de negociar com um Congresso em que o PL lidera as duas Casas
Reeleito para um quarto mandato, Lula enfrentará a partir de fevereiro de 2027 um Congresso com a direita fortalecida. O PL, partido de Flávio Bolsonaro, terá 121 deputados e 28 senadores, as maiores bancadas das duas Casas. Partidos de direita ocuparão 303 das 513 cadeiras da Câmara, o equivalente a 59,1% do total, enquanto o centro terá 86 parlamentares e a esquerda, 124. A federação de PT, PCdoB e PV terá 88 deputados, dos quais 70 do PT.
No Senado, os petistas terão nove cadeiras. Sem maioria própria, o governo deverá negociar com legendas como PSD, MDB, União Brasil, PP e Republicanos, oferecendo a liberação de emendas parlamentares, estimadas em R$ 57 bilhões no ano que vem, e espaço na administração. Uma emenda à Constituição exige 308 votos na Câmara e 49 no Senado, e a aprovação de um ministro do STF depende de ao menos 41 senadores. A escolha das Mesas Diretoras das duas Casas também será negociada.
O termo Centrão surgiu na Assembleia Nacional Constituinte de 1987 para designar uma aliança de partidos de centro e centro-direita, muitos deles ligados à Arena, a legenda que sustentou a ditadura militar. Entre 2003 e 2010, nos dois primeiros governos, Lula se apoiou em uma coalizão ampla, e no terceiro, iniciado em 2023, também precisou negociar com siglas de fora de sua aliança, em disputas sobre emendas, agenda econômica e cargos no governo.
Presidente reeleito poderá indicar até quatro ministros ao STF
O presidente reeleito poderá fazer até quatro indicações ao Supremo Tribunal Federal no próximo mandato. A conta inclui a vaga aberta com a saída antecipada de Luís Roberto Barroso, em 2025, e as aposentadorias compulsórias previstas de Luiz Fux, em 2028, de Cármen Lúcia, em 2029, e do decano Gilmar Mendes, em 2030. Pela regra atual, os ministros precisam deixar a Corte aos 75 anos. A vaga seguinte só será aberta com a saída de Edson Fachin, em 2033.
Lula deve escolher um nome ainda em 2026 e buscar um acordo para a aprovação no Senado. Durante a campanha, o petista defendeu mudar a forma de escolha dos ministros, com um colegiado que envolva a sociedade civil, e mencionou a possibilidade de mandatos para os integrantes do tribunal. Em 30 de setembro, ele afirmou que a credibilidade do Supremo estava muito baixa e disse que vai propor um conselho para selecionar os futuros indicados à Corte.
A cadeira de Barroso está vaga desde outubro de 2025. Em novembro daquele ano, Lula indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias, mas o Senado rejeitou o nome em 29 de abril de 2026, por 42 votos a 34, a primeira recusa de um indicado ao STF em 132 anos. Em maio, o presidente disse que pretende enviar o nome de Messias outra vez. No terceiro mandato, Lula já havia nomeado Cristiano Zanin e Flávio Dino para a Corte.